A carta ao papai Noel


   Recentemente com a minha resolução de atender crianças sem um "medo" e com um caminhão de dúvidas na minha cabeça, onde acabei me "assumindo" um psicólogo infantil, sinto que muitas coisas tem mudado em mim, muitas questões se alteraram de forma a praticamente se tornarem uma nova forma de ver o mundo e de também viver.

    Claro que na minha idade isso acontece de forma natural, penso ser algo que é inevitável, que carrega várias confusões também e que abre espaço para novos pensamentos e experiências. Isso é mais do que bom, é mágico, uma verdadeira oportunidade de conhecer a mim mesmo e a vida, mas vou escrever mais sobre isso em outra postagem.

   Em meus atendimentos de dezembro tenho perguntado aos meus pacientes infantis se escreveram a cartinha para o papai Noel, eles me olham com uma mistura de sorriso inocente e um olhar desconfiado para mim, faço uma brincadeira e digo que é uma carta importante, que não serve somente para pedir brinquedos e presentes, mas para agradecer, para dizer o quanto foram "bonzinhos" esse ano e pedir pelos outros também, sejam da família ou não.

    Uma coisa fico a pensar, nós adultos é que retiramos ou mesmo deixamos acabar essa magia nas crianças, não a cultivamos, não trabalhamos isso em família para que essa magia, que está presente todo o ano, não seja transformada em nossas crianças quando crescem. Não quero me enganar, eu também não fiz isso e não fizeram isso comigo, entretanto penso que conseguimos ter um pouco de consciência é possível mudar tudo, transformar em algo melhor ao menos um dia no ano, esse dia de Natal e outros dias eu, em minha adolescência, desacreditei e até mesmo lutei com todas as forças contra essa ilusão que provocava "danos" à consciência. Mas atualmente começo a entender que grande parte de nossa consciência se alicerça em sonhos, em fábulas e mitos que constroem o mundo ao nosso redor.

    O mito é somente a força motriz, o "start" para nossa criação, não se encerra nele mesmo, temos que dar vida a ele com a nossa vida, sempre que penso nisso percebo que uma das características imortais do mito é que o ressignificamos, revivemos ele sempre em nós e isso deve ser entendido não somente com algo inconsciente, autônomo mas como uma responsabilidade.

    Nós como adultos temos essa responsabilidade de repassar os mitos de forma a ajudar outros a entrar em contato com a vida de forma tranquila e cheia de significado, essa é uma tarefa bonita e que vale a pena, requer um grande esforço de se entregar e acreditar que é possível uma pessoa qualquer que viva seu cotidiano de trabalho e distância fazer o bem para si mesma e para as crianças que estão à sua volta.

    Por isso peço a todos meus pacientes crianças, que já escrevem, fazerem uma cartinha para o papai Noel e as oriento sobre o que devem colocar, agradecimentos, pedidos, sonhos, queixas, dores e esperança, pois é disso que o mundo é feito, disso que o Natal fala e é como será a vida de todos nós, dificil, implacável, sozinha por muitas vezes mas cheia de magia, uma magia que está no mundo e sentimos dentro de nós e se manifesta em nossos olhares e ações, pequenas coisas que não mudam o mundo mas acrescentam em nossa realidade algo novo, uma pouco de cada vez.











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